Lance Stroll vinha guiando sua Aston Martin pelo último setor de Madring, prestes a contornar a curva 20, a antepenúltima do traçado, quando não conseguiu fazer a tomada e foi parar na área de escape, abandonando o GP da Espanha no último domingo (13). Até ali, a corrida mostrava-se tremendamente enfadonha. Depois do lance – com o perdão do trocadilho com o nome do piloto canadense –, a etapa seguiria tediosa. Porém, o que ninguém sabia naquele momento é que o dono do carro 18 viria a cumprir um papel decisivo no resultado da prova.
Ao ver que o canadense abandonaria o Grande Prêmio, a direção de prova acionou o Safety Car Virtual (VSC). A ação mudou os rumos de uma corrida que parecia se encaminhar para a terceira vitória de Lando Norris nas últimas quatro etapas. O atual campeão mundial liderava com tranquilidade após largar na pole position e manter a ponta na largada. O dono da McLaren número 1, entretanto, não deu sorte.
No momento em que o VSC entrou em vigor, Lando já tinha passado pela entrada dos boxes e não pôde fazer um pit stop que lhe economizaria preciosos segundos sob o regime de bandeira amarela. E pior: Kimi Antonelli, segundo colocado, e Max Verstappen, terceiro, aproveitaram a chance para parar poupando tempo. O VSC se estendia, Norris seguia na pista e se aproximava da entrada do pit lane. Aparentemente, ele também se aproveitaria da mamata, mas não deu tempo.
Assim que o piloto da McLaren entrou nos boxes, a pista foi liberada e as luzes verdes voltaram a piscar, indicando a retomada da velocidade de corrida. Junte isso a outro problema – com os mecânicos do time papaia tendo dificuldades para trocar o pneu dianteiro direito do carro 1 – e pronto: Lando, que entrara para o pit stop como líder, voltou à pista na quarta posição.
Azar do atual campeão do mundo. Sorte do futuro campeão de 2026.
Andrea Kimi Antonelli voltou à pista na mesma posição em que se encontrava antes da parada: o segundo posto. À sua frente estava apenas Charles Leclerc, que optou por não parar por ter largado de pneus duros. Ou seja, salvo uma condição muito específica, era questão de tempo para que o piloto do carro 12 da Mercedes assumisse a liderança. E assim a corrida se desenvolveu: sem nenhuma grande ação de destaque, nenhum momento memorável. Um verdadeiro porre para pilotos, espectadores e telespectadores.
“Eu quase dormi também”, disse Gabriel Bortoleto durante as entrevistas pós-GP, ao ficar sabendo que muita gente teve dificuldades para espantar o sono causado pela falta de ação na pista.
Ultrapassagens? Foram contabilizadas apenas quatro depois da primeira volta — número menor do que o registrado, pasmem, em Mônaco, onde aconteceram 10 manobras. O traçado de Madring pouco oferece em termos de dinâmica de disputa. Nem as provas da Fórmula 3 (que consagrou seu campeão no fim de semana, o estadunidense Ugo Ugochukwu) e da Fórmula 2, geralmente animadas, escaparam do marasmo. O que se viu no domingo foi uma enorme procissão, o que não é nada bom para a imagem de uma prova estreante nem para a categoria como um todo. Algo precisará ser feito para 2027 em diante, já que a pista permanecerá no calendário até 2035, pelo menos.
Digno de alguma lembrança? Talvez somente a largada, pelos pequenos dramas subsequentes. Norris partiu bem da posição de honra, fechando Antonelli e deixando apenas o lado de fora para o garoto tentar algo. Nada feito, e o líder do campeonato ainda cortou a primeira chicane. Atrás de ambos surgiu um animado Lewis Hamilton, que largou bem e tentou se infiltrar entre a McLaren e a Mercedes, mas sem sucesso. Ao recolher, Hamilton ainda viu Max Verstappen, a quem tinha superado, cortar a chicane e reaparecer à sua frente. Nos metros seguintes, Antonelli voltou à carga contra Norris, mas, em outra freada para uma nova chicane, passou reto, teve de devolver a posição ao inglês e ainda foi superado pelo neerlandês — que, três voltas depois, seria orientado pela equipe a devolver a posição a Hamilton pelo corte na primeira chicane.
“Cara, de que porra vocês estão falando? Ele teria me atingido. Do que vocês estão falando? Se eu ficasse na pista, estaria fora da corrida”, bradou Max Verstappen, no rádio, ao receber a informação.
Ainda que inconformado, Max cedeu, caindo de segundo para quarto, mas voltando ao terceiro posto no giro seguinte, quando Hamilton apresentou problemas nos freios que o levaram a abandonar pela primeira vez no ano. Até então, o heptacampeão era o único piloto a ter completado todas as voltas e pontuado em todas as corridas da temporada.
Um pouco mais atrás, Oscar Piastri tocou em George Russell logo na largada e danificou sua asa dianteira. No fim do grid, Carlos Sainz Jr. acertou Yuki Tsunoda e, algumas voltas depois, deu uma bela trancada no amigo e compatriota Fernando Alonso, danificando a asa dianteira do bicampeão. Sainz Jr. anda meio de mal com o retrovisor...
E foi tudo.
Voltando para a frente do grid, Leclerc liderou boa parte da prova esperando que alguma intercorrência o colocasse em boa posição na disputa. Uma bandeira vermelha, por exemplo, poderia lhe dar a vitória, já que ganharia uma parada grátis para cumprir o regulamento de usar dois compostos diferentes. Mas nada aconteceu, e o monegasco entrou para fazer seu pit stop na volta 46, retornando em quarto e abrindo caminho para Antonelli liderar as 11 voltas finais e vencer pela oitava vez no ano, abrindo 81 pontos sobre Russell, vice-líder do campeonato e quinto na corrida.
Norris até ensaiou uma pressão sobre Verstappen e, mesmo com um ritmo visivelmente melhor, nada conseguiu fazer, cruzando em terceiro, atrás do neerlandês.
Em uma corrida das mais aborrecidas dos últimos tempos, não surpreende que um VSC tenha definido os rumos e resultados da prova.
Ponto positivo
A se destacar o bom fim de semana de Franco Colapinto. O argentino não apenas largou à frente de Pierre Gasly (que havia anotado a pole em Monza), como foi a única Alpine a chegar ao Q3. Na corrida, teve um desempenho sólido para terminar em sétimo, em um de seus melhores fins de semana na categoria.
Ponto negativo
Carlos Sainz Jr. teve mais um péssimo fim de semana. Tudo bem que a Williams está longe de ajudar, mas o espanhol também não vem fazendo por onde. Na classificação, não bastasse cair no Q1 enquanto Alexander Albon chegou ao Q2, ainda atrapalhou Valtteri Bottas, tomando uma punição de três posições no grid. Na corrida, acertou Tsunoda na largada e Alonso na volta 5, sendo novamente punido. Abandonou na volta 43. Um fim de semana para esquecer.
Para ficar de olho
A vitória escapou por circunstâncias de corrida, mas Lando Norris foi o piloto que demonstrou o melhor ritmo no fim de semana, comprovando sua boa fase. Venceu no Hungaroring e em Zandvoort, fez o que pôde em Monza e provavelmente venceria em Madri não fosse o azar. O inglês vive grande fase e, se já é tarde para pensar em uma investida pelo bicampeonato, ao menos vem se mostrando forte na briga pelo vice. Se mantiver o bom desempenho, não será surpresa se superar Hamilton e Russell na disputa.
0 comentários:
Postar um comentário