Pole position, vitória, volta mais rápida e todas as voltas lideradas. A vitória de George Russell no Grande Prêmio do Azerbaijão, neste sábado (26), foi uma resposta — e seu primeiro Grand Chelem na categoria. Talvez não para quem espera ver o piloto inglês de 26 anos iniciar uma improvável caçada a seu companheiro, o italiano Kimi Antonelli, na busca pelo título mundial de 2026. Mas para mostrar a si próprio que ele ainda tem o que entregar neste e nos próximos anos, em vez de sucumbir diante de uma derrota, até aqui, acachapante.
O triunfo de Russell no circuito urbano de Baku foi quase dominante. Nos treinos livres, o britânico foi o mais veloz nas duas práticas de quinta e o segundo no ensaio de sexta. Ou seja, ele sempre se mostrou muito competitivo nas ruas azerbaijanas. E na classificação, sua vitória começou a ser desenhada com maior nitidez. Na reta final do Q1, Antonelli cometeu um erro bobo na tomada para a primeira curva e acertou o muro interno, quebrando o braço dianteiro esquerdo de sua suspensão. O italiano abandonava ali o qualifying, tendo de se contentar em largar do 16º posto.
Melhor para George, que dali em diante brilhou, principalmente no Q3. Com o tempo de 1min42s526, ele colocou 0s837 de vantagem sobre o segundo colocado, o monegasco Charles Leclerc, e 0s838 para o australiano Oscar Piastri, terceiro no grid. Quase um segundo de vantagem para os principais rivais: uma eternidade em se tratando de um esporte onde milésimos são essenciais. Uma vantagem muito maior, aliás, do que a registrada para o segundo colocado na bandeira quadriculada. Mas isso é assunto para daqui a pouco.
A Mercedes mostrou que tinha muita velocidade pura. Porém, a corrida poderia trazer outros cenários e ameaças.
Na largada, o piloto do carro #63 fez bem a lição de casa, mantendo a dianteira. Piastri superou Leclerc, e Norris passou por Hadjar. Parecia que a McLaren poderia ser a maior ameaça a Russell. Contudo, as voltas seguintes apresentaram outra inimiga: a Red Bull. De volta ao grid, Isack Hadjar teve um fim de semana excelente. Classificou-se à frente de Max Verstappen e, em quatro voltas, superou Norris e Leclerc para se instalar, momentaneamente, em terceiro.
No entanto, foi Max quem mais brilhou. Largando em um não usual oitavo lugar, o neerlandês superou Gasly na largada e emendou uma escadinha de ultrapassagens. Na volta 2, ultrapassou Hamilton. No terceiro giro, deixou Norris para trás. Na abertura da quinta passagem, transpôs Leclerc e, duas voltas depois, colocou-se à frente do companheiro. O alvo agora era Piastri. Mas, contra o australiano, a disputa foi mais complicada do que parecia.
Em que pese a sua posição de chegada, Piastri andou bem neste fim de semana, como há muito tempo não fazia. Aliás, foi em Baku que sua derrocada no campeonato passado teve início, com uma classificação ruim, uma largada terrível e um acidente incrivelmente bobo antes da metade da primeira volta. Neste sábado, contudo, o dono do carro #81 teve um desempenho bastante consistente e deu poucas brechas à dupla da Red Bull, principalmente no segundo setor — o mais sinuoso do circuito de rua —, onde conseguia criar uma vantagem suficiente para impedir Verstappen de utilizar a potência extra na grande reta, caso estivesse a menos de um segundo atrás de Oscar.
Alheio às disputas, Russell ia abrindo uma vantagem confortável na frente, sem correr riscos e sem sofrer ameaças. Alheio ao que o companheiro fazia na liderança, Antonelli escalava o grid. Na volta 17, já estava na zona de pontos, em uma corrida para conter danos na pontuação do campeonato. Alheias à prova estavam as duas Aston Martin, que abandonaram com problemas: Stroll na volta 7 e Alonso no 20º giro.
A corrida ultrapassou sua metade e chegou à 31ª volta com apenas duas paradas: de Carlos Sainz Jr. e de Valtteri Bottas. Então, Alexander Albon resolveu adicionar — ainda que de forma não intencional — um tempero na prova às custas de sua própria corrida. O piloto anglo-tailandês encontrou a barreira de pneus entre as curvas 5 e 6, o que levou a direção de prova a intervir com o Safety Car. A correria se instaurou e todo mundo partiu para os boxes. Quem largou de pneu macio trocou para os médios e vice-versa. Na ordem de posições, não houve mudanças.
A relargada viria no giro 36. E aí, sim, vimos o caos. Verstappen, de pneus macios, enfim superou Piastri e partiu para a carga contra Russell. Atrás vieram Hadjar, Leclerc e Hamilton. E então, confusão.
Gasly e Norris brigavam pela sétima posição quando, de repente, o desgovernado Franco Colapinto tentou uma manobra, digamos, otimista demais, não conseguiu frear e atingiu o carro do companheiro — que, sem ter o que fazer, acertou o bólido do campeão mundial. Antonelli, que estava no meio do pandemônio, deu sorte e saiu ileso. Um pouco mais atrás, um Arvid Lindblad espremido entre o companheiro Liam Lawson e o compatriota Oliver Bearman acertou o neozelandês, que reclamou de maneira irônica:
“Cara, eu amo ser tirado da corrida pelo meu companheiro de equipe.”
No cercadinho das entrevistas, após a corrida, Norris optou por não ser irônico (e tampouco diplomático) para comentar a manobra de Colapinto.
“Alguns pilotos não deveriam estar na Fórmula 1, para ser honesto”, disse o piloto da McLaren, que ainda sugeriu que a categoria aplicasse punições mais severas nestes casos, até com o banimento por uma corrida. De cabeça mais fria, o inglês revelou ter se desculpado pouco depois.
Houve também quem defendesse o argentino, como Max Verstappen:
“Se o piloto que provocou o acidente está consciente disso e se desculpou, acontece. É um pequeno erro ou um erro de julgamento. Infelizmente envolveu tantos carros, não é legal para todos os envolvidos, mas uma suspensão por uma prova acho que é um pouco demais.”
E na Alpine... ali o clima não devia ser dos melhores, principalmente por parte de Gasly, que fazia mais uma boa prova. Ser tirado de uma corrida pelo próprio companheiro certamente não é das sensações mais agradáveis. Já para Colapinto, será necessário dar a volta por cima e não repetir esses erros estúpidos. O argentino tem suas qualidades, faz uma temporada decente, mas não pode se dar ao luxo de deixar que dúvidas sobre sua pilotagem acabem interferindo no seu futuro. Ele está garantido para 2027, mas em um time onde Flavio Briatore dá as cartas, podemos esperar de tudo.
Ah, Colapinto perderá cinco posições no grid da próxima prova como punição pelo ocorrido.
De volta à pista, a segunda relargada aconteceu na abertura da volta 39 e, desta vez, sem incidentes. Na passagem seguinte, Piastri tentou se defender de Hadjar, travou os freios e passou reto na curva 1, caindo para o fim do grid — algo semelhante ao que havia acontecido com Norris dez voltas antes. O australiano tinha potencial de pódio ou, pelo menos, de salvar bons pontos, mas terminou em 13º, enquanto o francês, que retornou após três corridas afastado, garantiu seu segundo pódio no ano, logo à frente de Leclerc. Antonelli passou Hamilton na sequência e fechou em 5º, com o heptacampeão logo atrás.
Na ponta, a disputa ficou entre Russell e Verstappen. Ambos calçando compostos macios, colocaram-se nas posições de caça e caçador enquanto abriam vantagem para o resto do grid. E o inglês se comportou muito bem, não dando brechas para o tetracampeão. Quando falei sobre a resposta dada por Russell ser a si próprio, era exatamente isso. Mesmo ameaçado, ele não cometeu erros, não falhou em uma situação de pressão onde apenas ele tinha algo a perder. Guiou como se espera de um piloto deste nível, com um bom carro nas mãos, e disse até que a disputa foi “divertida”.
Todavia, a corrida teve emoção até que ambos cruzassem a linha de chegada. Isso porque, quando os líderes estavam na última volta, Valtteri Bottas acabou enfiando sua Cadillac na proteção de pneus da curva 15, causando uma bandeira amarela no local. Malandro que só, Verstappen se saiu melhor do que Russell ao diminuírem a velocidade quando passavam por aquele ponto, tendo ainda uma última investida contra o britânico na enorme reta de chegada. No fim das contas, o neerlandês não foi capaz de superar o rival, cruzando em segundo a apenas 0s196 atrás — a 11ª menor diferença entre o primeiro e o segundo colocado na história da categoria.
Um pouco mais atrás, Lindblad teve mais sorte em uma tentativa semelhante, conseguindo superar Esteban Ocon para garantir o sétimo lugar. O francês da Haas — que depois da prova confessou que não seguirá como titular do time em 2027 (o posto deverá ser ocupado pelo brasileiro Rafael Câmara) — voltou a pontuar pela primeira vez desde Mônaco, que havia sido, inclusive, a última vez em que uma Haas terminou no top 10. Seu companheiro, Bearman, também anotou pontos, em nono. Carlos Sainz Jr. fechou a lista dos dez primeiros.
A Fórmula 1 retorna já neste fim de semana com o Grande Prêmio do Bahrein, que será disputado na Malásia, no excelente circuito de Sepang — fora do grid (não deveria) desde 2017. Solução criativa encontrada pela categoria e pelos organizadores da prova bareinita para cumprir os acordos comerciais, já que a região do Golfo Pérsico não anda lá segura devido aos conflitos entre Estados Unidos e Irã.
Pontos positivos
A Haas voltar a pontuar — e com seus dois carros — foi uma boa surpresa no fim de semana. Depois de passar oito provas sem terminar com pelo menos um de seus pilotos no top 10, somar seis pontos (quatro com Ocon e dois com Bearman) dá uma sobrevida ao time estadunidense, que abre uma vantagem um pouco maior para a Audi. Além disso, eleva a autoestima, especialmente do francês, que precisava mostrar serviço, já que está à procura de um assento para 2027.
Pontos negativos
Poderia falar de Ferrari e Audi, que apresentaram desempenhos abaixo do esperado. Mas o ponto mais baixo do fim de semana está em torno da Alpine. O acidente causado por Colapinto, que envolveu Gasly e Norris, já é, por si só, um problema para a escuderia francesa. Porém, eles ainda precisaram lidar com alguns fãs enlouquecidos do argentino, que saíram distribuindo ameaças para Lando, Pierre e quem aparecesse na frente. Comportamento deprimente — que não é exclusividade dos argentinos, ainda que alguns deles estejam constantemente envolvidos em episódios lamentáveis — na selva em que se tornaram as redes sociais. A equipe até soltou um comunicado condenando os atos, mas duvido que tenha efeito.
Para ficar de olho
Rafael Câmara pode ter garantido o título da temporada da Fórmula 2 neste fim de semana. A FIA, que não sabe se os GPs do Catar e de Abu Dhabi serão realizados, decidiu fazer uma rodada tripla da F2 no Azerbaijão. E quem se deu bem foi o pernambucano, que venceu uma das corridas principais e ultrapassou o rival Nikola Tsolov na tabela. Ou seja, caso a F2 não volte a correr no ano, Câmara repetirá os feitos de Leclerc, Russell, Piastri e Bortoleto, vencendo os campeonatos da F3 e da F2 de forma consecutiva e como novato. O brasileiro pode chegar à F1 com moral e tanta, já que a vaga na Haas se avizinha.
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